
Arte e Xadrez: A Obra de Marcel Duchamp Comemora os 60 Anos do Mam-SP Luiz Vasconcelos Loureiro -- 19.jul.2008 - 1h27 ARTE E XADREZ: A OBRA DE MARCEL DUCHAMP COMEMORA OS 60 ANOS DO MAM-SP MF Luiz Loureiro O xadrez, ao longo se sua história bi-milenar foi capaz de criar muitos e inesperados vínculos entre artes díspares, construindo verdadeiras “pontes” entre as margens distantes balizadoras do “rio” da criatividade humana, com suas variadas formas de expressão artística se debruçando sobre os mistérios de nosso jogo e nossa mente e exprimindo-os no seu meio próprio e específico e que marcam a cultura mundial. Da literatura à pintura e escultura, da música à fotografia e, do teatro ao cinema, nosso jogo tem sido abordado de modos sempre surpreendentes por grandes fazedores e inventores da arte de todo o formato. E um desses “revolucionários” da interpretação artística está sendo homenageado com uma grandiosa exposição que comemora os 60 anos do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. Desde o dia 15 de julho, p.p., e até 21 de setembro (vide “Serviço”, ao final da coluna), diversas peças concebidas e geradas por Marcel Duchamp (1889-1968) estão à espera do público interessado em conhecer de perto a produção desse que, nas palavras do professor e crítico de arte, Luiz Camillo Osorio, “é o artista que mais radicalmente redefiniu o fazer artístico desde Leonardo da Vinci”! É fácil encontrar em fontes acessíveis, como a Wikipédia (vide link no final), uma caracterização padrão dele como “... um dos precursores da arte conceitual, Marcel Duchamp começou sua carreira como artista criando pinturas de inspiração impressionista, expressionista e cubista. E é também o responsável pelo conceito de ready made, que é o transporte de um elemento da vida cotidiana, a priori não reconhecido como artístico, para o campo das artes. A princípio como uma brincadeira entre seus amigos, Duchamp passou a incorporar material de uso comum nas suas esculturas. Em vez de trabalhá-los artisticamente, ele simplesmente os considerava prontos e os exibia como obras de arte.” Um exemplo, digamos, algo chocante desse estilo, pode ser observado e apreciado (na medida do gosto e horizonte artístico de cada um!) abaixo, na obra conhecida como “Fonte’, datada de 1917. “FONTE” - 1917 Nessa e em outras peças desconcertantes, o artista franco-americano “... ao transferir objetos corriqueiros para os museus e designá-los como objetos de arte, realizou o gesto mais radical e banalizante da arte em nosso século”, na arguta observação de Osorio. Segundo o crítico e historiador de arte italiano Giulio Carlo Argan,os "ready-mades” podem ser lidos como gesto gratuito, como ato de protesto dessacralizante contra o conceito “sacro” da “obra de arte”, mas também como vontade de aceitar na esfera da arte qualquer objeto “finito”, desde que seja designado como “arte” pelo artista". Contudo, penso eu, mesmo que ele seja, simultaneamente, esse “infrator e destruidor” das normas da arte clássica e um “Colombo” de novos continentes artísticos, ele não estaria normalmente sendo citado numa crônica que, afinal, trata de xadrez! E, sendo assim, então porque sua presença aqui? Bem, para começar, Duchamp foi um jogador de xadrez razoavelmente forte, tendo vencido o Campeonato de Paris e integrado a equipe francesa em duas Olimpíadas, nos anos 1930 e participado de muitos eventos internacionais de bom nível. Também co-escreveu, com V. Halberstadt, um livro sobre finais tratando de um assunto tecnicamente muito difícil sobre o jogo, que é a chamada “Teoria das Casas Conjugadas”. É uma obra para mais do que iniciados, complexa e nada acessível, com um caráter quase críptico, próprio para decifradores de códigos secretos e interpretadores de evangelhos! Além disso, ele era fascinado, mesmo obcecado pelo xadrez, dedicando-se dias seguidos a sua prática e estudo, sem fazer mais nada, nem mesmo produzindo qualquer obra artística ou uma ação prática rotineira. De fato, conta-se que uma de suas esposas somente suportou seis meses de convivência conjugal, pois logo percebeu que “... para Marcel, a única coisa importante na vida é Xadrez”! Bem, do meu ponto de vista e filosofia geral, apesar de toda a simpatia que posso sentir por um cara como Duchamp, já descobri que os dois “jogos” mais lindos e complexos do universo inteiro são Mulher e Xadrez!! E nessa ordem!! Daí, que não se pode abandonar um em favor do outro! Devemos “jogar bem” os dois ao mesmo tempo e sempre!! No caso do irrequieto gênio, não sei se ele sacrificou verdadeiramente um desses jogos (o convívio com as mulheres), em favor do outro (o xadrez), mas no que é possível avaliar de modo objetivo, nossa amada “arte dos trebelhos” (Machado de Assis!?) foi beneficiada em termos de propaganda e divulgação eternas, já que Marcel também projetou e construiu novos jogos de peças, num formato moderno e modernista! Vejam, como ilustração temática, a foto abaixo. Duchamp e as peças de Max Ernest OBS: As pecas não estão arrumadas na forma correta! Além da produção própria (que não foi comparativamente, nem numerosa nem tão extensa), ele incentivou outros colegas e amigos (como, por exemplo, o já citado Max Ernest) a desenharem novos e marcantes estilos de peças e também comporem música, pintarem quadros e confeccionarem esculturas, produzirem filmes e tudo o mais, com o xadrez servindo como fonte de inspiração, tema e sugestão emblemáticos! Ele era, em fim, uma estimulante central de geração artística multimídia (“muitos meios”!) tendo o xadrez no foco e na origem! Um modelo de jogo de xadrez concebido e confeccionado por Duchamp está representado na exposição dos 60 anos do MAM-SP e é conhecido como “Buenos Aires Chess Pieces” e, dele, podemos ver, em seguida, duas fotos do inventivo formato que, naturalmente, não é, de amiúde, adotado em provas oficiais! E, se me permitem uma crítica pontual, creio que o artista (e designer!) deveria ter diferenciado o rei da dama com mais clareza e respectivas alturas bem distintas! “Buenos Aires Chess Pieces” (1) “Buenos Aires Chess Pieces” (2) Fanático a mais ou a menos, Duchamp recorreu ao uso do xadrez como item básico e regular de sua expressão artística muito particular em formatos surpreendentes, incluindo performances ao vivo e seu registro em imagem, como não se havia antes imaginado. Uma única e enfática (para dizer o mínimo!) ilustração desse complexo e infinito processo que une idéias, formas, imagens e meios -- os elementos que todo artista usa, em maior ou menor grau -- deixo à disposição dos leitores na foto seguinte. Duchamp joga Xadrez com uma musa nua e sem rosto! Desse modo, sugiro aos meus leitores fiéis (cheguei a ter uma dúzia deles e estou feliz com isso!) que considerem o duplo programa, cultural e de inverno, de fazerem uma visita à exposição (batizada de "MARCEL DUCHAMP: UMA OBRA QUE NÃO É UMA OBRA DE ARTE”) comemorativa dos 60 Anos do MAM – SP e contemplarem a bizarra, original e surpreendente “Coleção Duchamp”, que vem marcada, acima de qualquer outro aspecto, por sua fascinação com o xadrez. Como ele próprio, já artista maduro, confessou: “Eu ainda sou uma vítima do xadrez. Ele possui toda a beleza da arte e muito mais. E não pode ser comercializado. O xadrez é muito mais puro que a arte em sua posição social.” E eu, sem qualquer pretensão, consigo entender nesse caso um pouco da alma do artista... Ainda mais, sabendo que foi Duchamp quem afirmou com toda a convicção e seriedade: “De meu contato íntimo com artistas e jogadores de xadrez, eu cheguei à conclusão pessoal que enquanto nem todos os artistas são jogadores de xadrez, todos os jogadores de xadrez são artistas”!! OBS: Temas correlatos e dados sobre Marcel Duchamp podem ser encontrados nas seguintes fontes sugeridas, com seus respectivos links: · Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Duchamp · Galeria de Imagens da Exposição MAM - SP - UOL: http://diversao.uol.com.br/album/duchamp_album_album.jhtm · Imagens sobre a obra de Marcel Duchamp - Google: http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=Marcel+Duchamp&btnG=Pesquisar+imagens&gbv=2 · Entrevista com a curadora da exposição: http://diversao.uol.com.br/ultnot/2008/07/14/ult4326u993.jhtm · Crônica de Ferreira Gullar – Os Urinóis de Marcel Duchamp: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0605200725.htm · Ensaio de Luiz Camillo Osorio – Duchamp: A Crise da Arte: http://www.niteroiartes.com.br/cursos/la_e_ca/modulos2.html · UOL EDUCAÇÃO – Marcel Duchamp: http://educacao.uol.com.br/biografias/Marcel-Duchamp.jhtm Referências: 1. Luiz Camillo Osorio Doutor em Filosofia pela Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Professor de Estética e História da Arte no Departamento de Teoria do Teatro da Universidade do Rio de Janeiro. Assina a coluna de crítica de arte do Jornal do Brasil, e escreve regularmente sobre arte em revistas especializadas e textos críticos para catálogos de exposições. É também Coordenador de teoria e pesquisa do Museu de Arte Contemporânea de Niterói. 2. Giulio Carlo Argan Crítico italiano. Um dos mais expressivos historiadores da arte do século XX. Teórico da estética e ensaísta exemplar. Começando com suas avaliações e estudos sobre a arte Medieval e Renascentista, terminou legando aos entendidos um dos livros mais importantes sobre a arte contemporânea. Pondo-se na defesa do abstracionismo e da arquitetura funcionalista, o que era pouco comum entre os militantes comunistas, mesmo que italianos, tidos como mais liberais e tolerantes nas questões de estética, marcou sua posição entre os críticos que ajudaram na difusão da arte moderna. No estudo sobre o papel das cidades, classificou-as como "obras de arte", sendo que o centro delas, o núcleo histórico que as engendrou, para ele deve permanecer o mais intacto possível. Argan levou para o urbanismo os seus conceitos mais profundos da estética, definindo a existência de duas correntes históricas da arquitetura moderna que se contrapõe: a racionalista (Le Corbusier, Walter Gropius, Marcel Breuer, Pier Luigi Nervi, Mies van der Rohe, Theo van Doesburg, do grupo De Stijl), e a orgânica (linha representada pelo norte-americano Frank Lloyd Wright). Como tantos outros críticos de orientação marxista, voltou-se contra a expansão dos prédios mais elevados, e contra as regras do mercado aplicadas aos planos diretores das grandes cidades, que entendia serem expressões arquitetônicas da mecanização da vida humana. Obras: "Walter Gropius e a Bauhaus" (1951); "História da Arte como História da Cidade" (1983); "Clássico e anticlássico" (1984); "Arte Moderna" (1992); "História da Arte Italiana" (2002). SERVIÇO: Luiz Loureiro Rio Claro – SP 18 Julho 2008 |
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