"PEDAGOGIA HOGWARTS” - A Academia de Magia de Harry Potter - Parte I
Luiz Vasconcelos Loureiro -- 20.jul.2006 - 15h51

“PEDAGOGIA HOGWARTS”

 

A Academia de Magia de Harry Potter

e o Xadrez Escolar

(Parte 1)

 

 

Luiz Loureiro

 

 

 

 

  1. Introdução.

 

Ao ser convidado para dar aulas de xadrez numa escola particular do Rio de Janeiro, a partir de agosto de 2005, comecei a refletir sobre os métodos pedagógicos e esquemas de motivação que eu deveria empregar nas turmas de segunda e terceira séries do ensino fundamental que assumiria.

Os amplos objetivos da escola, ao oferecer a “Disciplina Xadrez” como uma atividade complementar, não valendo nota ou conceito, visavam explorar o potencial auto-formador do jogo, sua cultura e tradições, como uma ferramenta adicional na educação do aluno. Isso seria conseguido, idealmente, contribuindo para a maior concentração, capacidade crítica, senso de responsabilidade (consciência de causa e efeito quanto aos próprios atos e decisões), instrução relacionada (História, Matemática, Informática), espírito de competição, respeito ao oponente e expressão individual mediante a aprendizagem e prática esportiva sadia e compenetrada de cada criança participante.

Esses alunos tinham entre 8 (oito) e 11 (onze) anos, excelente base cultural e familiar e condições sócio-econômicas gerais típicas de classe média carioca, moradora da zona sul da cidade. Em tal situação, elas aprendiam até três (3) línguas (!!) simultaneamente, iam ao cinema, liam bastante, curtiam artes, praticavam esportes sob orientação, se expressavam com vivacidade, viajavam ao exterior, eram muito atentas, inteligentes e curiosas e bastante motivadas a novas experiências. Tal disposição coincidia com uma atitude inovadora da direção do colégio em oferecer opções de ensino diversificadas aos seus estudantes, mesmo os mais precoces, o que incluía a instrução opcional ou compulsória de atividades tão contrastantes como ginástica olímpica, outros idiomas, música, informática, dança e, por fim, xadrez!

 

  1. O Curso de Xadrez.

 

Sendo assim, dentro desse quadro geral e filosofia do colégio, cabia-me elaborar o conteúdo, formato e modo de apresentação e condução do curso em cada série, considerando que eu daria apenas uma aula semanal para cada turma, com a duração máxima de 40 (quarenta) minutos, ao longo do semestre. Ou seja, seriam nominalmente de 16 a 18 aulas em quatro meses e meio letivos, mas haveria o prejuízo derivado dos feriados e, talvez, de algumas atividades conflitantes com o horário de xadrez, como passeios temáticos e festas especiais da escola. Inicialmente, meu material técnico se restringia a peças padrão e tabuleiros de vinil (um conjunto para cada dois alunos em turmas pequenas com, em média, 14 alunos) e um mural magnético adequado. Era minha intenção produzir uma cartilha ou apostila de xadrez e utilizar um livro-texto escrito com a finalidade de orientar o ensino de xadrez nas escolas. Contudo, tais recursos de instrução programada somente puderam ser usados com outras turmas no primeiro semestre letivo, recém encerrado, desse ano de 2006 (mais sobre isso, na seqüência).

 

  1. Pensando sobre o formato do curso de Xadrez Escolar.

 

Eu sabia que teria que usar uma linguagem e atividades em sala adaptadas ao meu público especial, tão jovem quanto inquieto, tão curioso quanto dispersivo, tão inteligente quanto (logo descobri!) agitado! Eu tinha limitada experiência prática com essa faixa de idade, ainda que meus alunos anteriores formassem um público com características diferentes, como as que encontramos em escolas públicas, onde o nível cultural e sócio-econômico gerais são pronunciadamente mais limitados e pobres do que nas instituições privadas (não lêem tanto, não vão a cinemas, museus ou ambientes de artes, não viajam nem aprendem várias línguas, nem praticam atividades esportivas orientadas, etc.).

Mas não era apenas sobre isso que eu refletia. O que eu queria era encontrar uma forma de motivar os alunos ao longo do curso, ao mesmo apresentando xadrez como se fosse uma disciplina como outra qualquer da grade curricular (cumprindo certos formalismos pedagógicos e obrigações de conteúdo e disciplina) e também como uma atividade “legal e envolvente”, num clima descontraído, de “brincadeira séria”! Fazer com que as aulas fossem “gostosas“ para as crianças, mas segundo o ponto de vista delas e não o meu!

Para tanto, inicialmente recorri à visão, experiência e trabalho histórico de três profissionais enormemente respeitados no meio do xadrez e do ensino escolar do jogo no país, como Juliana Kamada e James Mann de Toledo, ambos de São Paulo, casados entre si (!) e autores do excelente livro “Xadrez para Todos”, e Carlos César Amorim, do Rio, às vezes denominado como “Professor NEXAPA”, por causa do Núcleo de Escolinhas de Xadrez do Professor Amorim, que ele criou há quase uma década atrás na capital, e que hoje está presente em sete escolas particulares da cidade e que, por si só, representa um movimento de formação de base no xadrez carioca.  Amorim, inclusive é co-autor de uma deliciosa peça teatral – Milk-Xeque – já encenada algumas vezes pelo país, onde ele apresenta xadrez para a garotada. Tive mesmo muita sorte e até o privilégio de contar com uma “consultoria” de tal nível, competência e histórico prático de aulas com o público escolar miúdo e ainda o fácil e quase abusivo acesso a eles, garantido pelo simples fato de serem os três, meus compadres! Eu podia sempre aparecer na casa deles e, cinicamente, explorar essa relação especial em prol da “ciência” (Pedagogia), perguntando a eles um monte de coisas que eu não sabia só porque amo os filhos que eles têm...

As preciosas e generosas sugestões e esclarecimentos que eles me passaram em numerosas conversas, somente de modo muito precário e indireto podem ser retribuídos, enquanto a minha obrigação de agradecer-lhes será eterna e sempre renovada a cada vez em que eu entrar numa sala de qualquer escola para dar uma aula de xadrez para crianças.

Ainda assim, eu continuava remoendo meu cérebro, consultando sites e livros, tanto de xadrez como de pedagogia, procurando os registros de experiências em projetos de ensino massificado do jogo em escolas públicas pelo país (como os conduzidos pelo GM Jayme Sunyê no Paraná, e as realizações semelhantes em cidades de Santa Catarina e outras, inclusive as que eu havia gerenciado como Coordenador Pedagógico, como “O Cuca Legal” – Rio – RJ – 1989- 1992, etc.), mas não encontrava o que eu sentia e imaginava, mas não sabia definir bem ao certo, que seria o “método pedagógico” a usar nos meus cursos com os novos alunos.

Até que, num certo dia...

 

  1. O modelo de Hogwarts e seus métodos pedagógicos.

 

Foi justamente no período das férias escolares de meio de ano, em julho de 2005, pouco antes de recomeçarem as aulas do segundo semestre, enquanto relia a série fenomenal de Harry Potter, de J.K. Rownling, então com cinco volumes, que me ocorreu a idéia de usar a ”Pedagogia Hogwarts” como método de conduzir o curso de xadrez na nova escola. Olhando como as coisas funcionavam já há um milênio (!) na academia de magia onde Harry Potter aprendia a desenvolver seus talentos de bruxo, me pareceu que eu poderia empregar um arranjo semelhante com minhas futuras turmas e simular os mecanismos tanto pedagógicos quanto disciplinares e motivacionais usados na escola, cujo reitor era Alvo Dumbledore, o maior bruxo e preceptor da história da magia.

 

Pausa para quem não conhece a saga Harry Potter!!

 

Para os que estão perdendo a delícia que é acompanhar a vida trágica e missionária de um garoto que, aos 11 (onze) anos sequer sabia quem e o “quê” ele era e que tem uma terrível missão na vida (a qual ele também ainda ignora!), aqui vão alguns registros mínimos relacionados com nosso tema, que explicam sumariamente o mundo ficcional criado pela autora inglesa J.K. Rownling e que é um sucesso mundial em livro e cinema.

 

·        Nesse mundo, as pessoas se dividem entre “trouxas”, pessoas normais como nós e “bruxos”, outras pessoas que têm potencial mágico e podem usar poderes de bruxaria.

·        Tais poderes são normalmente aprendidos em “escolas de magia” que existem espalhadas pelo mundo, mantidas ocultas e que, naturalmente, os  “trouxas” desconhecem.

·        Uma dessas academias, a mais conceituada, é justamente Hogwarts, sediada em algum lugar da Inglaterra. Ela foi fundada por quatro famosos bruxos há mais de mil anos.

·        Nela, os alunos são agrupados em quatro “casas”, a saber, CORVINAL, GRIFINÓRIA, LUFA-LUFA e SONSERINA, cada uma delas tendo como patrono e figura inspiradora um dos quatro bruxos fundadores. Eles farão o curso de magia em sete anos, sempre representando a casa para a qual foram indicados pelo “Chapéu Seletor”! Cada casa tem também seu brasão, cores, animal símbolo e tradições próprias.

·        Cada uma aglutina alunos com características de personalidade e temperamento similares aos dos fundadores das respectivas casas e dos valores e atitudes (coragem, ambição, lealdade, conhecimento, etc.) mais apreciadas e enfatizadas por eles.

·        Tudo que os alunos fazem, de todas as séries, para o bem ou para o mal, conta pontos para o denominado Torneio das Casas, computado a cada ano letivo. Existem tarefas, desafios, campeonatos de “Quadribol”, exames especiais, punições e quase tudo o mais que acontece na vida dos alunos (inclusive o que Harry Potter e seus amigos mais próximos e também inimigos aprontam!?) e da academia que contam pontos para o tal Torneio das Casas.

·        Os professores e o reitor atribuem e tiram pontos dos alunos o tempo todo e a atitude dos alunos fora das aulas também é motivo para aumentar ou diminuir a contagem de cada casa.

·        Os pais de Harry Potter estudaram em Hogwarts e também pertenceram à mesma casa que ele, Grifinória. Tudo é mágico nas instalações da academia, um palácio fantástico, onde os garotos ficam durante todo o ano letivo.

·        Os pais de Harry foram mortos, assim como outros bruxos do bem, por Lord Voldemort, quando Harry tinha somente um ano de idade. Esse mago do mal buscava tornar-se o bruxo mais poderoso de todos os tempos, mas sofreu um duro revés quanto tentou acabar  com o Harry, perdendo grande parte dos seus poderes e deixando uma cicatriz, em formato de raio, na testa do bebê escolhido (sim, há uma profecia relacionando o destino de ambos) e, por causa disso, desaparecendo por uma década.

·        Ao fim desse período, somente ao ser chamado e levado para Hogwarts, a fim de fazer o curso básico, é que Potter filho descobre parte de sua história, de sua condição de bruxo e de seu destino.

·        Em seu primeiro ano na academia é que Harry aprende sobre certo jogo dos trouxas – XADREZ (!!) -  mas jogado num tabuleiro muito especial, com peças vivas – “Xadrez de Bruxo” – que obedecem a comandos de voz ou mentais (telepatia)!

·        De fato, no primeiro episódio da série – Harry Potter e a Pedra Filosofal – a autora recorre ao xadrez em várias ocasiões, inclusive na cena que antecede o desfecho da trama, na qual Harry, Hermione e Rony assumem, com grande risco pessoal, os lugares de alguns combatentes numa partida de Xadrez com peças vivas gigantes!

·        Em todos os demais episódios da saga – que já atingiu o sexto encorpado volume – a autora usa o xadrez em passagens ocasionais, assim transformando Harry Potter num “embaixador” não oficial de nosso jogo.

 

 

Fim da pausa!!

 

Unindo todos esses fatores e tendo essa inspiração graças a Harry Potter e cia., resolvi atrevidamente realizar literalmente uma experiência, transferindo um pouco da academia de Dumbledore e antecessores para dentro da minha sala de aula. Desse modo, passaria a dar o curso de xadrez para alunos que também integrariam “Casas” (4 casas por cada turma) como as de Hogwarts (usei os mesmos nomes!) e também estariam num torneio permanente entre elas. Contudo, e ao contrário do que ocorria nesse lugar de instrução de pequenos bruxos, resolvi fazer também uma contagem e um ranking individuais, premiando o melhor de cada casa, em cada turma (eventualmente, até mesmo o melhor de toda a escola!?), em paralelo e simultaneamente ao concurso das casas.

É justamente o que eu compartilhei com meus alunos nessa atrevida experiência, e tudo que aprendi com eles, que pretendo narrar na seqüência desses artigos, nos quais procurarei explicar essa vivência e os métodos empregados – e que resolvi chamar genericamente de “Pedagogia Hogwarts” – e permitir aos meus colegas profissionais avaliar a conveniência de, eventualmente, empregá-la em seus respectivos cursos de Xadrez Escolar.

 

Permitam-me encerrar com uma citação relativa ao trabalho de todo professor, de qualquer um que se pretende considerar ou é tido como “mestre”:

“Educar é acender uma chama, e não encher um vaso!”

Sócrates – filósofo grego, IV século, AC.

 

Continuará.

 

Luiz Loureiro

lvrlx@uol.com.br

Bragança Paulista – SP

20 Julho 2006

 

 

 

 

 

 



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